Excelente post do blog chmkt sobre o poder das palavras e o imenso cuidado que nós planejadores devemos tomar ao passarmos um briefing para a criação. Lembrando sempre: nosso dever é inspirar dando o direcional correto, e não determinar como a idéia deve ser criada!!!

Quando você for escrever seu próximo briefing, recomendo dar uma lidinha nesse post antes para quebrar eventuais ‘atentados’ à inspiração dos nossos queridos criativos.

Publico abaixo o post na íntegra, sem deixar de linkar à fonte chmkt e dar os devidos créditos ao autor Carlos Henrique Vilela:

“O papel do Brief Criativo é inspirar e direcionar a equipe de criação na busca por uma solução criativa. Pensando nisso, o, hoje, consultor Damian O’Malley – que já foi diretor global de planejamento da DDB e da McCannn – escreveu um case que virou referência em qualquer curso sobre planejamento .

O texto, publicado em 1987 no Blue Book da APG do Reino Unido – livro já esgotado -, tenta simular o que teria sido o “briefing” passado ao artista Michelangelo pelo Vaticano com o caminho a ser seguido na pintura do teto da Capela Sistina. O resultado é uma das obras de arte mais brilhantes da história. Abaixo, as palavras de O’Malley:

Brief 1: Favor pintar o teto.
Não há dúvidas de que isso é o que estava sendo solicitado ao Michelangelo, mas esse brief não dá nem pistas sobre o que a solução para o pedido seria. Ele deixa toda a decisão e pensamento para o artista antes que ele inicie.

Brief 2: Favor pintar o teto usando tinta vermelha, verde e amarela.
Esse brief é ainda pior. Além de não dizer a ele o que pintar, dá inúmeras restrições sem nenhuma justificativa. Restrições que irão, inevitavelmente, provarem-se incômodas e que irão distraí-lo da sua tarefa principal.

Brief 3: Temos problemas terríveis de rachaduras no teto. Você poderia cobri-los para nós?
Esse é ainda pior. Ainda não diz o que deve ser feito e dá informações depressivas e irrelevantes que mostram que ninguém está interessado no que ele irá pintar porque o teto não durará muito até que caia. Quanto esforço ele tenderá a colocar nessa tarefa?

Brief 4: Favor pintar cenas bíblicas no teto incorporando alguns ou todos os seguintes: Deus, Adão, anjos, cupidos, demônios e santos.
Melhorou um pouco. Agora estão começando a dar a ele alguma direção. Não deram a figura inteira, mas pelo menos ele já conhece alguns elementos importantes. Esse é o brief que a maioria de nós daria. Ele contém tudo que o criativo precisa saber, mas não vai além, em direção à idéia e solução.

Aqui está o brief que o Michelangelo recebeu na verdade: Favor pintar nosso teto para a glória maior de Deus e como uma inspiração maior às pessoas.
Ele pegou o brief e pintou uma cena que retrata a criação do mundo, a queda, a degradação da humanidade pelo pecado, a ira divina do dilúvio e a preservação de Noé e sua família. Ele soube o que fazer e foi inspirado pela importância do projeto. Com um direcionamento assim, ele estava livre para dedicar sua atenção à execução dos detalhes do brief da melhor maneira que ele sabia.

Palavras são pequenas bombas: as certas podem explodir dentro de nós, demandando uma solução original e excitante, ao invés de uma medíocre. Sempre trabalhe muito, mas muito para encontrar a proposta certa e, então, ainda mais para encontrar as palavras que a expressam da maneira menos ambígua e mais excitante possível.”

Outro dia recebi um email de uma amiga aqui da agência pedindo ajuda para um amigo… Ele precisava de um roteiro padrão para montar uma apresentação de planejamento.

O pedido era simples, mas foi um tanto inesperado para mim, pois nunca havia pensado sobre isso. Como não podia deixar de ser, analisei o porquê da surpresa, que me levou também à resposta enviada: em planejamento, nos acostumamos a ‘vestir’ cada projeto de forma tão visceral, que passamos a respirá-lo, transpirá-lo… e tudo o que é criado para ele, parece único, específico, feito sob medida. É como se colocássemos uma nova lente diante dos nossos olhos para cada nova apresentação que fazemos.

Filosofias à parte, cheguei à conclusão de que, na verdade, o que existe é um processo de raciocínio de planejamento. E a partir desse raciocínio, surgem milhares de idéias em relação à forma, ou seja, em como rechear, ‘costurar’ com mágica e brilho o fio condutor da idéia a ser construída.

Assim, a forma/modelo varia  de acordo com o briefing, o tipo de planejamento (estratégia digital ou offline, posicionamento de marca/produto, de comunicação, etc. etc.) e necessidades específicas de cada projeto. Mas todo ‘raciocínio’ de planejamento nasce a partir do seguinte ‘roteiro de pensamento’:
- Nossa visão sobre o briefing – como entendemos o briefing de um modo geral e qual nossa visão sobre a demanda;
- Análise do Contexto/Cenário – situação de base, dados de mercado, evolução da categoria,  análise dos principais players/concorrentes, análise SWOT;
- O consumidor – definição demográfica, comportamental e atitudinal do target, mapeamento de barreiras e principais pontos de contato;
- A estratégia – como o objetivo do projeto será cumprido, como venceremos as principais barreiras identificadas, quais meios de contato são mais relevantes para cumprir o propósito do projeto, qual posicionamento devemos assumir para nos diferenciarmos dos concorrentes, … ao final da estratégia, devemos ter um pensamento único, que represente todo o raciocínio construído desde o início da apresentação e que direcionará a criação/ o desenvolvimento do projeto/ a apresentação da proposta ou solução ao cliente.

Resumidamente é isso. Mas de fato, varia muito mesmo.

O importante é sempre ter em mente que precisamos construir um raciocínio completo. Por isso, é preciso escolher com cuidado cada peça, cada informação, cada capítulo, cada conclusão para que, ao final, tudo esteja ‘amarrado’ e direcionando à conclusão final.

E, por incrível que pareça, uma ótima dica para saber quando a apresentação ficou perfeita, é observar a reação da ‘platéia’ ao final. Se os rostos estiverem sorrindo ‘internamente’ e concordando quase que sem querer com a cabeça, com aquela cara de que obviamente aquela conclusão/recomendação parecia a única possível, a mais lógica e assertiva, então meu amigo, pode ir embora feliz, com a sensação de tarefa cumprida. Pois você terá não apenas convencido o cliente e vendido a sua idéia, como também construído um raciocínio perfeito, que parecia naturalmente óbvio, enquanto nós, e somente nós, planejadores, saberemos o quanto suamos e queimamos neurônios para chegar até ele.

Missão cumprida!